REEDUCAÇÃO EMOCIONAL

Amar os defeitos do outro é um aprendizado que pede tempo, tolerância, inteligência e investimento. Mas vale a pena - e torna a vida muito mais interessante, como sabe o poeta e cronista gaúcho ...Fabricio Carpinejar.


Nem sempre estamos dispostos a conversar e compramos brigas à vista. Casamento e namoro são frágeis. Não se deve pensar duas vezes, mas sentir duas vezes. As palavras ferem. Conviver é cuidado para encaixar o termo certo. Muitas iras e muitos divórcios tolos podem ser evitados com a reeducação emocional. Ninguém briga por grandes causas; os desentendimentos ocorrem por banalidades, como se indispor a lever o lixo, esquecer um pedido. Não é a ação que conduz à discussão, e sim a postura, uma frase torta, ríspida, que feriu o orgulho. Fácil entrar na arena de palavrões, complicado largar a cena.

Intimidade significa conhecer as fraquezas daquele que nos acompanha para não usar a nosso favor no momento da briga. É um fairplay dentro de casa. Mais: fazer com ela ou ele não tenha vergonha por agir e ser assim. Caso seu marido seja careca, não deboche, com medo da opinião dos amigos e conhecidos. Muito menos encaminhá-lo, à revelia, a implantes miraculosos.

Amar é romper estatísticas Aquilo que pode ser  ruim pode ser bom. Basta inverter a perspectiva e descobrir um novo jeito de respirar dentro do amor. Descobrir uma compreensão - sem data de validade - que é superior à tolerância, quando aguentamos por tempo determinado para em seguida cobrar a conta. Admirar não apenas o que se é mas o que também não somos e seremos.

Monotonia é ter um par que pense igual; criatividade é receber o amparo do contraponto Não tentar convencer de que sua opinião é superior, que seu estilo de vida é o adequado, numa cruzada alucinada por dominar o parceiro, porém oferecer um jeito diferente de pensar os problemas. Enquanto um casal concorre para definir quem está certo, ainda não há relação. Ambos devem se desarmar dos preconceitos. Somar sua fraquezas, e não disputar forças. Não é para engolir qualquer ato, mas identificar aquilo que nos incomoda e não é grave assim (Não incluo os vícios. Se ele é fumante e ela não, ele deve aceitar que vai para de fumar. Ela fará campanha pela sua saúde. No começo, até vai ceder espaço para as tragadas. Ao final, ou larga as baganas ou fumará na marquise do prédio).

Nunca diga: Não quero que falem mal de você Deixe que os demais falem mal, trate de falar bem para compensar. Ruim é quando engrossa o coro. O pulo do gato é inspirá-lo a admitir a aparência. Várias vezes o que nos falta são argumento para nos defender e desafiar o senso comum. Afinal, não casamos ou namoramos para gostar do que todos gostam, e sim para criar o próprio gosto. Diga que quem é careca tem mais rosto para beijar. Não há como errar o beijo. Haverá uma distensão do problema. Caso ele seja obcecado por futebol e já esteja farta dos jogos na tevê, apareça com a camiseta de um time desconhecido. Na hora em que ele questioná-la, comente com displicência que é o uniforme de FC Radian-Baikal Irkutsk, da Rússia. Ele ficará intrigado e abandonará a obsessão.

Rir de si talvez seja o mais eficiente conselho. A autocrítica é terapêutica. Se ela percebe que falhamos e reagimos com leveza, não se enxergará cobrada por errar. Por sua vez, não desfrutar de autocrítica é cair na tentação do autoelogio. Ao apontar o defeito nela, automaticamente estou afirmando que não sofro disso. Criticar é uma forma de se apresentar superior. O humor é uma forma de ser melhor junto.

Ouvir ou adivinhar Escute com atenção de um apaixonado. Ouvir é mais comovente do que adivinhar. Existe o costume de mostrar que compreende o próximo projetando suas atitudes negativas. Expectativa pessimista soa como rejeição e influencia o curso dos acontecimentos. Antecipar o que o outro pensa só motiva a crise.

Troca-se de opinião com facilidade enquanto ainda é pensamento Uma das coisas que a mulher e o homem procuram é alguém que entenda seus defeitos. Que olhe os defeitos com ternura. Cômodo e previsível aceitar as virtudes de nosso par; o difícil é acolher as manias e tíques sem censura e repreensão. Sabe aquelas diferenças que tentamos mudar ao longo da convivência e não conseguimos corrigir? Justamente elas é que provocam saudade. Por que ela tenta conversar com secador ligado ou prefere estacionar em esquinas e entradas de garagens ou esquece, invarialvelmente, a cafeteira ligada de manhã? As diferenças incorrigíveis formam o temperamento. Não nos apaixonamos por quem é igual à gente. Senão, bastaria cruzar os cartões de crédito e as preferências para surgir o homem ou a mulher ideal.

... da revista Cláudia - Fevereiro 2011

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