sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

DECEPÇÃO ...


Há duas coisas dentre tantas que eu estou com uma dificuldade danada pra "engolir".
Renan Calheiros como presidente do senado e o Carnaval de mais de três milhões de reais cuiabanos da escola de samba MANGUEIRA.
Vou postar mais um texto copiado de uma jornalista da capital,quem sabe assim vai ficando mais fácil.
O povo de Cuiabá é vítima de um processo histórico de colonização desenfreado e discriminatório.

Desde a década de 70, tudo que é daqui tem sido alvo de críticas perversas, ao ponto do pessoal querer esconder o sotaque entre dentes e aprender a “falar direito”.

Demora um tempo para quem aqui chega – os chamados paus rodados – ir descobrindo nas clandestinidades da cidade o jeito cuiabano de ser e viver.

Aos poucos flui, pelos cantos das conversas, esse dicionário impagável próprio, investigado pelo jornalista Pedro Rocha Jucá. Está no livro “Linguajar Cuiabano” que o falar daqui tem influência do português arcaico do século VI.

Às vezes, a gente encontra por aí um poeta Manoel de Barros escondido sob o musgo de uma pedra ou ao lado de um guri, em cima de uma mangueira, se lambuzando de liberdade. Ou o escritor Guilherme Dicke, na encruzilhada da noite filosófica.

Ainda andam por aí – em nosso inconsciente coletivo – Zé Peteté, Maria Taquara, Mãe Bonifácia e o nosso Jejé, que bem merece uma homenagem em vida! Esses personagens entram e saem de casarios tombados– os poucos que restaram, nas ruelas do centro histórico tão judiado pelo tal progresso.

Dependurado em algum muro, o artista Liu Arruda – travestido de Cuiabana – espia a vida lá de cima do infinito e grita impropérios.

Maria Izabé, farofa de banana, feijão empamonado, paçoca de pilão. Nada disso pode faltar nas festanças de São Benedito, o santo cozinheiro, para quem a currutela ergueu a primeira igreja local, ao lado do córrego da Prainha, onde ouro brotava olhos nus.

Cuiabá é uma cidade eminentemente católica, porém há mais de 300 quintais de religiões afrodescendentes, milhares de evangélicos e tantos outros fiéis de diversas crenças.

Sob o prateado que brilha no rio Cuiabá no final da tarde, vão se batendo no leito pacus, pacupevas, peraputangas, outras espécies. São peixes de couro duro, cara de bicho rústico, dos pantanais, dos cerrados, das florestas. Há quem já nadou ali no rio Cuiabá, mas hoje é impossível, o manancial está poluído.

No rosto já misturado por tanta migração, ainda está o traço forte negro e índio, forte como braço de gente escravizada, mais tarde refugiada em quilombos, como Mata Cavalo. Místico como o canto dessas etnias que se reúnem em aldeias para todo lado deste Estado, resistindo à afronta desse mesmo colonizador, bandeirante, que também se misturou por aqui.

Com a até então desconhecida arma de fogo nas mãos, bandeirantes já chegaram aqui dizimando e escravizando indígenas, menosprezando os nativos e a cultura local.

Roda Cuiabá na saia de chita da dançarina de siriri e pulsa nas cordas de uma viola de cocho do cururueiro. É rasqueado, rasqueia, rasqueia, rebuça e tchuça.

É preciso tirar a roupa toda, para chegar à raiz resistente desta terra negra e indígena, a quem todo o Brasil conhece como sendo hospitaleira e quente. "Não se viu Carnaval por Cuiabá nesses quatro dias, só uns poucos batuques, quase nenhum festejo. As escolas de samba daqui estão praticamente falidas ou totalmente, os blocos vão insistindo… "

Afinal, qual a capital mais calorosa do Brasil? Até a banda Skank já sabia disso e registrou na música “Te ver”(1994).

Não vi nada disso na maravilhosa Mangueira, que como tapete cênico enche sempre de deslumbre os olhos de gentes, como a gente, dos rincões do Brasil, ao assistir pela televisão talvez o único carnaval que restou, porque os de rua estão enfraquecidos e os de clube também.

Para não dizer que tudo se perdeu, o enredo equivocado e evasivo acerta no trecho “(…) cidade formosa….verde…rosa…teu nome reluz, Vila Real do Bom Jesus (…)”

Mesmo diante de tudo isso, ainda assim ficou difícil medir a emoção, que pende entre a paixão pelo carnaval – essa maravilhosa festa popular em sua origem– e a frustração de não ter visto Cuiabá ali na Mangueira, mas não passou nem perto. As distorções foram tantas que o queixo “chegou a cair”. Noiva cadáver? Pacu embonecado? Minhocão do pari com cara de dragão ou cobra de mitologia? Isso fora as inúmeras omissões.

Isso custou R$ 3,6 milhões ao povo cuiabano. É muito dinheiro, para uma cidade dispor, já que também é vítima social do crescimento desenfreado e discriminatório supracitado. Por causa disso, os serviços públicos básicos são muito mal prestados, quais sejam escola, saúde, transporte, infraestrutura nos bairros e há muito pouco incentivo cultural local. A cidade, enquanto lugar de se viver, faz padecer até os mais pacientes. É muito problema social! E agora com a COPA – que também foi ignorada pela Mangueira e isso até que foi bom – o caos está instalado.

Não se viu carnaval por Cuiabá nesses quatro dias, só uns poucos batuques, quase nenhum festejo. As escolas de samba daqui estão praticamente falidas ou totalmente, os blocos vão insistindo… Esse feriado aqui, de modo geral, é apenas um tempo de descanso e de ver pela tela da TV as multidões delirando em Olindas, Recifes, Rios e Minas da vida.

Por fim, fica a falta de cuidado com a história de Cuiabá, com o povo de Cuiabá, como se isso fosse alguma novidade…Mas fica também um abraço para essa cidade querida, diversa e humana que, rapidamente, aprende-se a amar.

KEKA WERNECK é jornalista em Cuiabá.

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